Ontem assisti Aquarius, finalmente. Evitei a todo custo todas as matérias e comentários sobre, mais por preciosismo mesmo de ter aquele primeiro contato quase cru, coisa de gente medrosa com pontadinha de vontade de ser surpreendida. Claro que sabia da repercussão do protesto em Cannes, importante por uma penca de razões. E fiz até algumas considerações sobre o significado desse ato com alguns amigos. Mas quero falar de Aquarius. Poderia tecer papos e mais papos sobre a beleza das cenas, da montagem afiada, da escolha impecável da trilha, da Sônia, de Recife. A beleza acontece nos detalhes. Mas o que mais criou ondulações em mim tem outro fundo. Dialogou diretamente com toda a percepção sobre as distorções que circundam nossas vivências num mundo absolutamente capitalizado como o nosso. A força e velocidade com que somos engolidos e engolimos a cada instante. Como não sabemos lidar com o tempo que corre diferente na vitrola, como nos esforçamos quase obsessivamente em atualizar os sentidos das nossas relações com as pessoas, com os lugares, com o impalpável, quase sempre numa chave reificadora.
Mas a memória tem um mecanismo que escapa aos olhares menos atentos: não é só o passado relampiando, puro, mas sua reelaboração no presente produzindo significados. Nessa interação é que se constitui nossa história. Aquarius não está vazio. Não só pela presença marcada de Clara mas, sobretudo, pelo bombardeamento incessante de um mundo que não corre mais no tempo de um vinil, que invade da forma mais sutil até a mais corrosiva, as paredes e fundações daquilo que ainda resiste. Aquarius está tão cheio que falta o ar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário