10.3.17

Quando feita de rios

Existe uma passagem na vida pr'aqueles que ainda não entenderam muito bem o que significa deixar o tempo passar. É o momento do retorno. A gente precisa aprender a lidar com a memória de uma forma menos pedante. E triste. Aquilo tudo aconteceu, ué. Faz parte da gente. Essas histórias estão marcadas nas linhas do seu rosto. Presta atenção. Com carinho. E o retorno é a fase mais confusa mesmo. Parece um teste. Desencana. TÁ TUDO BEM. Cê parece que tá triste, mas deve ser só falta d'água. Vai se hidratar. Ele voltou. E volta mesmo. Tem que voltar. Não dá pra enterrar memória. Tem que conversar com ela as vezes. É saudade. É saudável. Pode botar aquele disco também, música ancora e dá mais ritmo para as lembranças. Mas bebe uma água também pra recarregar o que precisa desaguar.

https://www.youtube.com/watch?v=dzM-lB8R898

8.11.16

Quase nada

Cê não me visitava há tempos. Acho que fiquei meio desconcertada ontem. Chorei. Mandei umas mensagens mentais bem cafonas. Conversamos alto às 2 da manhã. Fiquei com raiva. E tem essa música do Alceu. Essa saudade que deságua feito rio procurando mar. Quando eu olho pra mim, vejo tu. Mas é tão no fundo que as vezes confunde a vista. Não uso óculos quando te encontro. Não faz diferença, sempre fomos meio borrados. Acho que só queria conversar. Tá foda. Queria que cê lembrasse. Diz aí por quem continuo aqui. Queria nada. É só você. Fade in. Fade Out.

14.9.16

Aquarius

Ontem assisti Aquarius, finalmente. Evitei a todo custo todas as matérias e comentários sobre, mais por preciosismo mesmo de ter aquele primeiro contato quase cru, coisa de gente medrosa com pontadinha de vontade de ser surpreendida. Claro que sabia da repercussão do protesto em Cannes, importante por uma penca de razões. E fiz até algumas considerações sobre o significado desse ato com alguns amigos. Mas quero falar de Aquarius. Poderia tecer papos e mais papos sobre a beleza das cenas, da montagem afiada, da escolha impecável da trilha, da Sônia, de Recife. A beleza acontece nos detalhes. Mas o que mais criou ondulações em mim tem outro fundo. Dialogou diretamente com toda a percepção sobre as distorções que circundam nossas vivências num mundo absolutamente capitalizado como o nosso. A força e velocidade com que somos engolidos e engolimos a cada instante. Como não sabemos lidar com o tempo que corre diferente na vitrola, como nos esforçamos quase obsessivamente em atualizar os sentidos das nossas relações com as pessoas, com os lugares, com o impalpável, quase sempre numa chave reificadora.
Mas a memória tem um mecanismo que escapa aos olhares menos atentos: não é só o passado relampiando, puro, mas sua reelaboração no presente produzindo significados. Nessa interação é que se constitui nossa história. Aquarius não está vazio. Não só pela presença marcada de Clara mas, sobretudo, pelo bombardeamento incessante de um mundo que não corre mais no tempo de um vinil, que invade da forma mais sutil até a mais corrosiva, as paredes e fundações daquilo que ainda resiste. Aquarius está tão cheio que falta o ar.

5.7.16

Quereres

A vontade ganha outras formas quando sai da gente.
Cuscuz, por exemplo. A melhor delas.

12.7.15

a prazo

Não faço fiado da vida
só das coisas do peito.

2.9.14

metade

Parte de mim é conversa com o mundo; a outra, desgarrada de sentido, mergulha fundo. Sempre tive essa imagem bem clara em mim  uma das poucas, diga-se de passagem. Sou funda. Não profunda, nesse sentido qualificador da pessoa. Funda. Afundam em mim o tempo e o resto.

As vezes paro pra espiar meus pensamentos, prestando atenção naqueles que demoram a passar. Posso senti-los escorrendo por dentro, impregnando meus limites. Descem fininho, como se a gravidade não fosse o bastante e o fôlego faltasse na descida.

9.11.11

Curva

Para os descaminhos: fascínio.

23.10.11

Janela Quebrada

Ácaro flanando
decidido
antes de desaparecer
no lençol amarelo-pálido


11.7.11

depois

só uma vontade: ser dois.

26.2.11

do espanto

Descobri assim
- sem eira nem beira -
que sou toda passageira.

B. A.

20.1.11

veraneio

Cabelo quase no ombro; respiro pela metade.

Ah, Janeiro...

2.12.10

Dezembro

Que não é de lembrança que vivo.
Mas sou assim, esquecível.

15.11.10

Maresia

Por algum tempo eu não quis sumir. Não tinha vontade, era bom estar. De repente era a mudança entrando, devagarzinho, serena e corrosiva. Senti da ponta dos cílios até a pele formigante da nuca. Como quem avista o mar de longe, seguro, mas inquieto diante de tamanha infinidade. 

11.10.10

reticências

Três pontinhos no céu.
A vida continua.

23.9.10

brevidades

Alguns minutos aspiram eternidade. Cheiro de café quentinho, brisa antes da chuva, você sorrindo na distância. Mas chegam já acenando, breves. Por aqui, só as idéias escorrendo por entre os fios do cabelo, uma marca circular na página x de um livro qualquer.

6.9.10

vírgula

É que vezenquando a gente se engana, e gosta.

5.9.10

setembro

Hoje o tempo não está. O que persiste é só essa moleza que me faz piscar devagarzinho, com medo de perder os tons, guardando a vista. Pequenas alegrias.

25.8.10

meio tom

Descobri, entre um passo e outro, aquilo que não pode ser. Não é culpa do tempo, dos dias atrasados ou desse calor que me corta. Tampouco culparei o Universo, hoje não. Às vezes é preciso abstrair certas vontades, abandoná-las antes que transbordem e com muito custo não olhar para trás.

22.8.10

um dia

Não é fuga, é encontro.
Às vezes é preciso não estar.